Ontem choveu. Gravamos na Rádio Difusora, a primeira transmissora de Salinas, e no mercado, as pessoas ouvindo o programa Campo e Cidade, do Oswaldo, desde o período experimental da rádio. A previsão é de termos tempo chuvoso até quinta. Sexta vejo Marília, que vem pro fim de semana e pra quermesse. E o sol volta.

dois dias sem ver essa cor no céu-que-nos-protege
Aproveitarmos para afiar a prosa no saguão do hotel, com Javas e com outros hóspedes. Javas sempre tem comentários irônicos e bem-humorados sobre qualquer situação (”deu um tapa na macaca, foi escutar Pink Floyd e começou a se abaixar fugindo da polícia”). Aqui passam professores, gente da mineradora, copasa, cemig, fazendeiros, juízes, com assuntos variados e vindos de diversos lugares. A prosa é sempre certa, seja sobre plantação, cachaça, escola, seleção ou comida. A indicação também é certeira, como o humor local.

Eilton, André, Zezé, Augusto e seu genro, João, Zonete e eu. prosa no Patricinho

quem pode dizer que a prosa tava ruim?
Em cada lugar, cada conversa, Salinas se faz presente, hospitaleira, sedutora e como a cachaça, em fermentação. Nesses tempos, Salinas cresce, envelhecendo em tonéis de mineiridade, com uma sabedoria que parecia enterrada em Minas. Aqui, o Norte ainda vem do prazer.

moinho que estará no Museu da Cachaça
Segunda conversamos com Sabino, que tem suas terras bem próximas ao centro de Salinas. Muito bem cuidadas, fazendo sua cachaça dentro de um critério de produtor que começou a produzir para o consumo próprio, dele e de seus irmãos. Conhece o cheiro e o sabor de uma boa cachaça, e usa seus sentidos no cuidado da produção, além dos técnicos. A cachaça é feita no capelo, desde o início, esquentado pelo fogo na caldeira, alimentado com o cuidadoso acompanhamento. Na sua produção, nada se perde. Nem o bagaço, nem as cinzas, nem o álcool. Pra alimentar os bois, adubar ou fazer combustível para seu carro. Tudo é aproveitado. Até a fumaça, como ele diz.

olho de boi

fogo fátuo

a água que resfria o "tromba de elefante"

"a fumaça eu aproveito pra espantar os mosquitos que ficam incomodando a gente"
Hoje, fomos conhecer outro Aristides, o Artista, que é como é conhecido e como chama a todos. Extremamente organizado e cuidadoso, sua loja é arranjada de acordo com o jeito próprio com que mantém o local de trabalho. Mesmo na época em que não produz, tudo está limpo e organizado. Os tonéis de envelhecimento, onde sua cachaça fica por 7 anos, sua engarrafadora, seu alambique de capelo. Como Sabino, ele acredita que a cachaça do capelo é bem melhor, devido à maneira como o fogo aquece o seu produto. Riso solto e largo, Artista tem originalidade pra escolher rótulos, fazer cachaça e ganhar a vida com prazer e amor, que ele diz ser o ingrediente fundamental de seu produto. Imaginei como era a boléia de seu caminhão, se ele sempre foi assim organizado. Basta ver a sua fazenda, a represa, a irrigação, a fermentadora… “Quem é organizado, cuidadoso, asseado, nasce com isso. É de educação”. Como quem é Artista. Nasceu com isso dentro de si. Só fez cultivar com cuidado.

"se não nascesse com a gente, rico nascia feio e operava pra ficar bonito"
O tempo não para de passar, mas aqui ele não corre. Pra onde ir é escolha de quem segue o tempo. A escolha é sempre a prova da sabedoria. Como disse Artista: “ce já viu lugar que não tem treita e mulher bonita e feia?”